
A Chapada Diamantina é um destino baiano totalmente típico de quem está em busca de autoconhecimento e contato com a natureza. Bem no coração da Chapada, a cerca de 500 km de Salvador, está um charmoso município de duas igrejas, uma praça e calçamento de pedra: Mucugê.
A partir desta quinta, 15, a cidade, que é patrimônio nacional, torna-se palco da literatura. Trata-se da Feira Literária de Mucugê (Fligê), que, até domingo, 18, promove uma vasta programação, que conta com lançamento de livros, mesas de conversa, conferências, oficinas, peças teatrais e shows. O evento é uma realização em parceria do Instituto Incluso, Coletivo Lavra e Governo do Estado, com patrocínio do Governo Federal.
Esta é a quarta edição da feira, que tem o intuito de abraçar a literatura e colocá-la em diálogo com outras artes, potencializando a formação de leitores de todas as idades. Pensando nisso, a cada edição, a Fligê elege um homenageado. Desta vez, é o poeta Castro Alves.
"Ele tem o apelo de um poeta jovem, de vida curta e obra pertinente. A ideia de homenageá-lo vem de um planejamento desde as edições passadas, mas só conseguimos organizar agora", explica Ester Figueiredo, curadora da feira.
Agosto tem sido um bom mês para Castro Alves: esta é a segunda vez que o poeta é reverenciado em uma feira literária no intervalo de uma semana. Afinal, ele também foi o homenageado da recente Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô.
"Foi uma bela coincidência e não é a primeira vez que acontece a mesma escolha de homenageados em feiras literárias. Vamos, inclusive, promover um encontro entre curadores para debater essas questões", diz Ester.
Pensando Castro Alves
Toda a programação da Fligê foi pensada a partir da escolha do homenageado. Assim, Castro Alves se faz presente no evento de diversas formas, seja através de uma discussão sobre sua obra, seja a partir de histórias de novos autores que o utilizam como inspiração.
Amanhã mesmo, por exemplo, o poeta abolicionista é tema da conferência 'Castro Alves: o filho da terra em imagens afrofuturistas', com Edvard Passos. Castro Alves foi objeto de pesquisa do mestrado do escritor, diretor e produtor de teatro, que apresentou o baiano e sua relação com teatralidade e performance.
"Nessa conferência, trago Castro Alves para os dias de hoje. Por um bom tempo, eu tive certa repulsa em falar dele porque toda abordagem de sua obra era antiga, arcaica, até que pude estudá-lo de outra forma", conta.
Edvard ainda participa de outros momentos da feira. Um deles é na mesa de conversa 'Quem escreve e se afeta em Castro Alves', junto aos escritores Saulo Dourado e Adelice Souza, que recentemente usaram o poeta em suas obras.
"Castro Alves tem uma força de ativista político e artista que serve de inspiração para os dias de hoje. A homenagem é uma oportunidade de descongelar essa figura e trazê-lo para a atualidade", reflete Edvard.
Além do poeta
Nem tudo, porém, gira em torno de Castro Alves. Na mesa 'Ânimo de invenção e tradição literária', por exemplo, os escritores Aleilton Fonseca e Itamar Vieira Júnior se juntam para falar da literatura como um todo e seu papel no mundo. "A arte tem sempre algo a comunicar. É um espelho da atividade humana e se debruça sobre nossas próprias experiências", avalia Itamar.
O baiano foi vencedor do Prêmio Leya 2018 com Torto Arado, que acaba de ser lançado no Brasil. "A história do livro se passa na Chapada Diamantina, então o fato de participar da Fligê se torna ainda mais especial", afirma.
Outro premiado que está entre os convidados da feira é o cearense Mailson Furtado, que participa da roda de conversa 'À cidade: territórios dos afetos (in)visíveis'. O escritor foi vencedor do Prêmio Jabuti 2018 com o livro-poema 'À Cidade', que marcou a primeira vez em 60 anos da premiação que o melhor livro foi de um autor independente.
"Vivemos um momento de quebra de grandes selos e livrarias, ao mesmo tempo em que coisas positivas, como saraus e slams, ganham força. Ganhar esse prêmio mostra que as pessoas estão abrindo os olhos para a produção independente e vendo que ainda há alternativas na crise literária", garante Mailson.
*Sob a supervisão do editor Chico Castro Jr.
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