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Aumento de prisões fortaleceu o crime organizado, avalia pesquisador

07/12/2023 às 11h20
Por: PROVISÓRIO Fonte: chicosabetudo
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Aumento de prisões fortaleceu o crime organizado, avalia pesquisador

A modernização da segurança pública nos últimos 20 anos levou ao aumento
exponencial do número de prisões. Mas o que era visto como “remédio” para
controlar o crime, há duas décadas acabou fortalecendo o comando de facções
dentro dos presídios. Essa é a avaliação do jornalista e escritor Bruno Paes Manso.

“Esse remédio de segurança pública acabou produzindo o efeito colateral, que foi o
fortalecimento das gangues prisionais e uma modernização da cena criminal do
tráfico de drogas no Brasil. A gente produziu, imaginando ser um remédio, o nosso
veneno. E agora, a gente vê a situação descontrolada e a gente pede que se dobre a
dose do nosso remédio”, critica o pesquisador do Núcleo de Estudo da Violência da

Universidade de São Paulo (USP). Ele esteve em Brasília para lançamento do seu
mais recente livro: “A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI”.

O livro descortina dois fenômenos que se ligam à atuação do Estado nas periferias e
comunidades pobres das cidades brasileiras. Por um lado, o Estado é omisso no
provimento de boas condições de moradia e infraestrutura, oferta de serviços de
educação, de atendimento médico, de cultura e de lazer. Por outro lado, mantém
presença estritamente repressiva e violenta contra a população, em nome da guerra
ao crime.

A população desassistida pelo Estado encontra nas igrejas evangélicas vida social,
conforto espiritual e recursos de sobrevivência em lugares tomados por milícias e
facções criminosas, que prosperam pela incapacidade de o poder público oferecer
segurança a essas áreas.


Ganhador do Prêmio Jabuti em 2011 com “A República das Milícias”, Bruno Paes
Manso concedeu uma entrevista exclusiva à Agência Brasil. Veja os principais
trechos abaixo:


Agência Brasil - Observando dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, fica
evidente a alta mortalidade em operações policiais. Mortes especialmente de
pessoas pretas, pobres e periféricas, diga-se. O excesso de violência policial é sinal
de perda de controle pelos governos estaduais?

Bruno Paes Manso - Eu acho que sim. É um sintoma importante da perda de
controle. Vai ser o sexto ano seguido do Brasil com mais de 6 mil homicídios
praticados pela polícia. E a violência policial foi a semente das milícias no Rio de
Janeiro.

 O policial que mata aproveita a vantagem comparativa que tem na cena do
crime para ganhar dinheiro com o crime. Isso aconteceu historicamente, desde a
época dos esquadrões da morte.

O policial que tem carta branca para matar usa
esse poder e essa condescendência para tirar vantagem e ficar rico com isso. O
Brasil é o país com maior letalidade policial disparada no mundo. E é um sintoma do
descontrole dos governos sobre suas polícias. O Rio de Janeiro é o caso mais
dramático, mas você tem isso em diversos estados, como na própria Bahia.
Agência Brasil - Para os moradores das comunidades, há diferença nas formas de
domínio exercido pelas milícias e pelas facções criminosas? Que inferno é pior?
Bruno Paes Manso

 - Olha, essa é uma pergunta que, vira e mexe, surge no Rio de
Janeiro. No modelo de negócio das milícias, muitas vezes os próprios moradores
são extorquidos tanto no comércio como em suas as residências, por monopólios de
negócios que geram lucro excessivo e o morador é obrigado a financiar o crime. Já o
tráfico de drogas ganha dinheiro pela venda de drogas a pessoas que querem
comprar. Mas com o tráfico de drogas ocorrem as operações policiais que produzem
muitas mortes, violência e descontrole. São dois problemas sérios de tiranias
armadas exercendo o mando nesses territórios que deveria ser controlado pelo
Estado.

Os próprios cariocas falavam para mim que viviam um Game of Thrones,
uma Guerra dos tronos, onde você não vê o Estado como garantidor. Você tem
diversos donos de morro lutando e impondo suas vontades pela violência. Então, é o
pesadelo e a tirania armada pré-moderna. E é ruim para todo mundo.
Agência Brasil - Você estuda violência no Brasil há 20 anos. Conhece alguma
iniciativa estatal que tenha sido eficiente para reduzir a criminalidade de forma
duradoura?


Bruno Paes Manso - Nos últimos 20 anos ocorreu modernização da segurança, com
investimento nas polícias militares, que são as polícias territoriais, que passaram a
prender com mais agilidade em flagrante. A Polícia Civil tem um papel muito frágil na
investigação e na compreensão da cena, da dinâmica criminal.

 Então, se prende muita
gente pouco importante. Superlotam as prisões que passaram de 90 mil nos anos
1990 para quase 900 mil depois de 30 anos. Essas prisões superlotadas, em vez de
controlar o crime, passaram a fortalecer os chefes das facções dentro das prisões,
que controlam o crime no interior das prisões. Então, esse remédio de segurança
pública acabou produzindo o efeito colateral, que foi o fortalecimento das gangues
prisionais e uma modernização da cena criminal do tráfico de drogas no Brasil. Então,
a gente produziu imaginando ser um remédio, mas é o nosso veneno. E agora, a gente
vê a situação descontrolada e a gente pede que se dobre a dose do nosso remédio.

Mas há situações isoladas [de sucesso], principalmente voltadas à redução de
homicídios. Tivemos o Pacto pela Vida [programa criado em 2007] em Pernambuco,
que o governador focou na redução dos homicídios.

Foram situações bem-sucedidas
que mudam o comportamento, pelo menos que seja momentaneamente, do tráfico
de drogas. Porque as drogas vão continuar sendo vendidas, mas se você tiver um
tráfico que não mata e que não exerce a tirania nos territórios, já é uma redução de
danos importante.

Em alguns momentos caminhou para esse sentido. Há também o
trabalho de serviço social nos territórios da paz no Pará, onde o Estado chega por
outras formas, com equipamentos de arte, cultura e tudo mais. Essas iniciativas são
muito isoladas. A guerra ao crime, com a superlotação do sistema prisional, é a base
da nossa política de segurança pública. A gente não aceita grandes mudanças
alternativas de política de segurança pública.

Agência Brasil – A operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) decretada pelo
governo federal para portos e aeroportos em São Paulo e no Rio de Janeiro e o
aumento da fiscalização policial nas fronteiras do MT, MS e PR terão alguma
repercussão na redução da criminalidade nas comunidades?


Bruno Paes Manso - Eu acho que a GLO foi uma tentativa de dar uma resposta
naquele momento da crise que levou à morte dos médicos [na Barra da Tijuca, no Rio
de Janeiro]. Os Estados Unidos têm 3 mil quilômetros de fronteira e investe bilhões

de dólares para tentar fazer esse tipo de trabalho. E não consegue. A fronteira com o
México continua sendo um desafio e são 3 mil quilômetros. O Brasil tem 17 mil de
fronteira e um ínfimo de investimento.

Para lidar com isso, não é esse o caminho. A
atuação tem que ser numa outra esfera, num outro tipo de trabalho. Eu acho que foi
um equívoco, de fato. Ainda mais, mais uma vez, trazer as Forças Armadas para lidar
com o problema. E é mais um desvio de assunto para que aparentemente, as coisas
continuem como estão, fingindo que está trabalhando um teatro de ação para que, no
fundo, as coisas continuem iguais.


Agência Brasil – A ausência estatal para prover segurança, mas também ensino de
qualidade, atendimento à saúde e lazer, antecede o crescimento de igrejas
evangélicas?
Bruno Paes Manso - O desafio é viver em cidades onde cada vez é mais importante
ter dinheiro para sobreviver. Dinheiro é a diferença entre vida e morte. É oxigênio. E
você precisa ter uma visão empreendedora dos desafios de sobreviver à miséria. Os
evangélicos oferecem um propósito de vida. Isso é muito importante. Eles oferecem
autoestima a partir da crença em Cristo.

Oferecem networking para conseguir
trabalho. Autocontrole e disciplina é condição de prosperar numa sociedade onde
cada vez mais é importante ganhar dinheiro. E aí eles surgem com toda essa nova
ideia de mundo e ideia de vida, oferecendo um propósito e ordem para uma vida
muito desafiadora. E foi abraçada, de uma forma geral, pelos brasileiros, porque
realmente oferecem instrumentos para sobreviver nesse mundo muito ligado ao
capital e ao e liberalismo, ao mercado e com estados cada vez mais frágeis.
Agência Brasil – Há relações entre crime e fé nas periferias? Como o discurso da
violência e o discurso evangélico se articulam?


Bruno Paes Manso - Eu acho que, de uma forma geral, a Igreja ainda é uma porta de
saída importante da cena criminal. O criminoso entra no crime muitas vezes ativado
pelo desafio da sua masculinidade. Com esse tipo de discurso, o cara entra no crime,
começa a perceber que foi seduzido por um engano. Porque, na verdade, ele se
afasta dos amigos, dos parentes, dos afetos. Passa a viver uma vida também sem
sentido, em busca de um dinheiro vazio que ele percebe que não faz sentido nenhum.
E ele quer uma porta de saída. É reconstruir a identidade. A Igreja oferece isso,
oferece a possibilidade do arrependimento. A partir do momento que se arrepende,
você pode ser perdoado. A partir do momento em que você é perdoado e abraça
Jesus, você tem uma nova identidade e você não é essencialmente mau. Você estava
sendo influenciado pelo demônio e agora que abraçou Cristo, você pode renascer do
zero.
Isso é a base da igreja e continua sendo a base, mas, ao mesmo tempo, dialoga
muito com o crime. O PCC passou a oferecer um sentido de vida também falando

“olha, em vez de você ser um bandido egoísta e bicho solto, você vai fazer parte de
um novo consciente criminal que vai ter uma visão coletiva do crime, o crime
fortalecendo o crime. Você vai obedecer regras do crime. Você vai ser um bandido
sangue bom, vai prosperar assim, dessa forma e também vai renascer na atividade
criminal”. Muitos dos elementos da igreja foram usados para criar esse novo
propósito, essa nova ordem do crime, e eles passam a dialogar a partir da
prosperidade e da capacidade de ganhar dinheiro e de sobreviver nesse mundo.
Agência Brasil – O Rio de Janeiro “exportou” o modo de funcionamento do crime
com as facções? O mesmo pode acontecer com as milícias? Em outros lugares já
ocorre a dialética entre fé e crime?


Bruno Paes Manso - O Rio tem suas especificidades. E lá teve o Complexo de Israel,
que um traficante começou a controlar cinco favelas a partir de um discurso
religioso. Ele falava ser um traficante ungido de Deus, que sonhou com Deus, que deu
um propósito nessa luta do bem contra o mal. E a partir daí ele passou a se expandir
para outros territórios. Com esse discurso que ele era um traficante que representava
o bem. Eu não acho que isso vá ser exportado para outros lugares, porque eu acho
que a diferença entre crime e trabalho ainda é muito presente no resto do Brasil. Mas
existe um diálogo. Existe um diálogo que a partir do momento que você faz parte do
mercado, você oferece empregos, você tem empresas formais e você vai à igreja.
Você já está inserido na sociedade e é aceito e pode financiar campanhas [políticas].
E isso começa a fazer parte do dia a dia da cena política e econômica brasileira.

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