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A solidariedade que transforma o sertão

11/12/2023 às 11h03
Por: PROVISÓRIO Fonte: Agência Brasil
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A solidariedade que transforma o sertão

Bem-vindo à Vila do Cabelo Duro. Aqui você irá conhecer um Brasil diferente, que mistura realidade e imaginação. O cenário é o sertão nordestino. Árido. Duro. A depender da natureza, a realidade da vila seria tão miserável como a que o escritor Graciliano Ramos retratou em sua obra-prima de 1938, Vidas Secas. Passado tanto tempo, parece que pouca coisa mudou por ali. Nas casas, simples de tudo, falta água, comida, roupa, remédio, brinquedo. Só não falta esperança.

 

E ela se renova a cada nascer do sol — e em boa parte graças ao trabalho iniciado há exatos 30 anos pela empresária paulistana Alcione Albanesi. Movida pelo sonho de fazer o Natal de 1993 melhor para famílias esquecidas pelo Estado (e por quase todos os outros brasileiros), essa mulher inconformada com a pobreza dos outros convenceu alguns conhecidos a doar uma pequena parte de seu tempo e dinheiro a quem nada tem.

A semente plantada naquele ambiente inóspito vingou e vem dando frutos para as mais de 150 mil pessoas atendidas mensalmente pela instituição Amigos do Bem, hoje presente em três estados: Alagoas, Ceará e Pernambuco.

A Vila do Cabelo Duro existe de verdade. Fica em Buíque (PE) e é uma prova de que tudo pode ter solução. Até a fome, a sede, a falta de instrução e de saúde.

Para provar que mudar a realidade é possível, como já provou em outros lugares, a instituição liderada por Albanesi implantará ali um programa para atender 2 mil crianças, levando ensino, alimentação e projetos de vida para quem hoje não sabe nem sequer o que é isso.

E para mostrar como essa transformação será feita, Albanesi criou um simulacro de como vivem as pessoas em uma parte do Brasil onde tudo é difícil. Uma Vila do Cabelo Duro cenográfica foi montada na casa de espetáculos Espaço Unimed, em São Paulo, para a celebração dos 30 anos dos Amigos do Bem.

O cenário reproduziu o sertão de forma autêntica, com cada objeto trazido de uma casa real. Quadros, panelas, canecas, tudo foi doado por moradores. Isso ajudou a sensibilizar os convidados que lotaram os 1,5 mil lugares disponíveis.

Tendo Pedro Bial como mestre de cerimônia, além da animação de Luciano Huck e Rodrigo Faro, a comemoração terminou com um show do cantor Daniel.

Resultado: a meta de arrecadar R$ 30 milhões para construir um novo Centro de Transformação foi superada de longe. O valor chegou a R$ 38 milhões, que serão investidos para transformar a Vila do Cabelo Duro.

No domingo (17), um show musical para 50 mil pessoas no Allianz Parque, o estádio do Palmeiras, em São Paulo, também terá parte da renda revertida para o projeto criado por Albanesi. Os ingressos esgotaram semanas antes.

“Por mais que a gente possa construir, ainda é pouco diante das carências do sertão”, afirmou a mulher à frente de 10,6 mil voluntários comprometidos com um mesmo ideal: criar oportunidades para que as pessoas saiam da miséria por meio de capacitação, trabalho e geração de renda.

“A doação é importante e nós seguimos arrecadando e levando mantimentos para as famílias, mas apenas isso não resolve”, disse Albanesi. “Eu acredito que para vencer a miséria é preciso primeiro garantir o acesso à educação e, depois, criar oportunidades para que as pessoas trabalhem, empreendam.”

Por isso, nos quatro Centros de Transformação (CTs) construídos pelos Amigos do Bem nas cidades de Buíque e Inajá (PE), Mauriti (CE) e São José da Tapera (AL), os jovens e crianças recebem formação socioeducacional para desenvolver competências técnicas e humanas que permitam iniciar trajetórias de vida com melhores perspectivas pessoais e profissionais.

 

Há aulas de violão, percussão, inglês, artes, teatro, dança e saber, que complementam a grade curricular do ensino fundamental oferecido nos Centros Educacionais.

Com essa abordagem, as escolas dos Amigos do Bem obtiveram desempenho 8,0 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para efeito de comparação, em 2021, a média das escolas públicas no Ceará ficou em 5,3; em Pernambuco, 4,7; Alagoas, 4,6. Além de notas mais altas, os alunos atendidos permanecem mais tempo estudando.

Mensalmente, mais de 200 voluntários viajam para o sertão. Entre eles há psicopedagogos, psicólogos e assistentes sociais que atuam junto aos alunos e aos familiares para encontrar formas de manter o interesse pelo ensino e evitar a evasão escolar.

Com 3 mil m² de área construída, cada unidade tem 25 salas de aula, auditório, quadras poliesportivas e refeitório. A cada ano, 1,8 milhão de refeições são servidas às crianças que frequentam os?Centros de Transformação. Em paralelo às aulas, há oficinas profissionalizantes de culinária, manicure e tecnologia, entre outros cursos.

E a jornada não termina ali. Mais de 500 bolsas de estudo para faculdade já foram fornecidas pelos Amigos do Bem. “Tudo é auditado pela Ernst & Young [EY]”, disse Caroline Albanesi, filha de Alcione e voluntária no projeto desde criança, assim como seus três irmãos.

Se a educação é a base para transformar vidas por meio do conhecimento e do trabalho, antes da sala de aula vem a casa. Por isso o programa não contempla apenas o ensino e a capacitação profissional. Ele começa matando a sede, furando poços artesianos (foram 60 até agora, a maioria alimentada por energia solar), construindo cisternas (123) e distribuindo cerca de 1,2 bilhão de litros de água por ano em uma frota própria de caminhões-pipa.

 

Depois da água vêm a comida e o que vestir. São 360 mil cestas básicas entregues por ano e 440 mil peças de roupas, calçados e outros itens de vestuário triados e restaurados pela equipe voluntária.

A assistência às comunidades inclui:
• consultas médicas,
 exames,
 fornecimento de remédios,
 procedimentos odontológicos
 e até a construção de moradias (mais dados no infográfico abaixo).

BEM MAIS PRECIOSO

Coordenar todo esse trabalho exige não apenas competência administrativa. Ele demanda energia para motivar os voluntários, liderar os colaboradores contratados (cerca de 120), fazer a gestão de custos, ir atrás de doações e ainda visitar as comunidades no sertão ao menos uma vez por mês.

Alcione Albanesi faz isso tudo com a disposição de uma adolescente. Quando entra em uma das salas onde trabalham voluntários na Central do Bem, na Zona Leste da capital paulista, ela parece ligada no 220.

Diz bom dia como se estivesse apresentando um programa de TV, em alto e bom som, bate palmas, pergunta como está o fluxo de trabalho, se falta algo, o que pode ser melhorado. É uma imagem inspiradora, e talvez explique por que tanta gente a acompanha há tanto tempo sem receber nenhum centavo.

“Metade dos voluntários está com a gente há 15 anos”, disse Albanesi. Entre as funções que executam está dar nova vida a bonecas e brinquedos doados — que serão entregues para os próximos donos na caixa, como se nunca tivessem sido usados.

Outras estão costurando enxovais completos para futuras mamães do sertão, com toalhas, mantas, roupinhas de bebê. Uma pergunta se impõe: como convencer as pessoas a doar seu bem mais precioso, que é o tempo delas? “Nós não queremos uma ação voluntária, queremos um voluntário que realmente assuma a nossa causa e que dedique seu tempo de forma consciente.” Exatamente como ela faz todos os dias.

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