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Complexo eólico próximo a habitat da arara-azul-de-lear ameaça animais

03/06/2021 10h16 Atualizada há 3 semanas
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Por: Redação Fonte: uol.com.b

Imagem: Reprodução

A multinacional francesa Voltalia está iniciando a construção de um complexo eólico em Canudos, na região da Caatinga baiana, a 400 km de Salvador. O projeto prevê a instalação de 28 turbinas eólicas num primeiro momento e outras 53 numa segunda fase. O empreendimento contará ainda com uma rede de transmissão de energia de 50 km, adentrando o município de Jeremoabo. Toda a eletricidade produzida será vendida para a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) num contrato já fechado pelos próximos 20 anos

Acontece que essa mesma região abriga o principal refúgio no Brasil da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), espécie considerada em perigo de extinção, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). A arara-azul-de-lear tem o hábito de realizar longos voos diariamente, cerca de 60 a 80 km. Sai do dormitório ao amanhecer, se alimenta em áreas vizinhas à sua morada, basicamente dos cocos da palmeira licuri, e no final da tarde, pode ser vista, aos bandos, chegando de diversas direções

"Achamos arriscado o funcionamento de um parque eólico na área de ocorrência das leares. A espécie voa aos pares e em bando, de modo que um único evento de colisão poderá incidir na morte de muitos indivíduos e comprometer a viabilidade populacional em pouco tempo, ou seja, extinguir a espécie", alerta Glaucia Drummond, superintendente da Fundação Biodiversitas. Há 30 anos a Biodiversitas mantem uma área particular de 1.500 hectares na região, a Estação Biológica de Canudos, onde é realizado, em parceria com outras entidades nacionais e internacionais, um programa de conservação que inclui o monitoramento da arara-azul-de-lear, a proteção das áreas de alimentação e dormitórios, além de pesquisas sobre comportamento e projetos de educação ambiental.

Descrita pela primeira vez em 1856, o habitat da arara-azul-de-lear permaneceu desconhecido por mais de um século. Foi apenas em 1978 que pesquisadores descobriram sua localização, na região conhecida como Raso da Catarina, considerada por isso "sítio-chave" pela Aliança Global para a Extinção Zero e área prioritária de importância extremamente alta para conservação da biodiversidade da Caatinga pelo Ministério do Meio Ambiente.

O primeiro censo, realizado em 2001 pela Biodiversitas, em conjunto com o Cemave - centro nacional voltado para a conservação das aves silvestres ligado ao ICMBio, apontou a existência de 228 indivíduos. No último, de 2019, já eram quase 1.500, observados em seus cinco dormitórios: Serra Branca, Estação Biológica de Canudos, Fazenda Barreiras, Baixa do Chico (Terra Indígena Pankararé) e Barra do Tanque.

Por causa da melhora nos números da população, a arara-azul-de-lear passou da categoria "criticamente em perigo" da IUCN para "em perigo", em 2011

Legislação exige licenciamento ambiental completo.

Segundo a Biodiversitas, um dos pontos que mais chama a atenção sobre o empreendimento é que a Voltalia não precisou apresentar um licenciamento ambiental completo para obter a permissão para a obra

Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabelece a exigência de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), além de audiências públicas, para plantas eólicas que estejam situadas em "em áreas de ocorrência de espécies ameaçadas de extinção e endemismo restrito".

Apesar disso, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) aprovou o projeto somente com a apresentação do licenciamento simplificado. "Desejamos que a lei seja cumprida e todas as etapas obedecidas", diz Glaucia, da Biodiversitas.

Em duas declarações enviadas por e-mail, a Voltalia afirmou primeiramente que "todos os seus projetos seguem rigidamente a Legislação Ambiental Brasileira e possuem todas as licenças necessárias para construção e operação". E, numa segunda mensagem, "que realizou estudos para avaliação de impactos e de benefícios sociais, econômicos e ambientais, com propostas de ações de controle/mitigação da fauna e flora local, reafirmando que o projeto possui todas as licenças necessárias para a fase atual. A companhia também reforça seu compromisso com o meio ambiente e ressalta que as ações de preservação ambiental das araras não cessam durante a operação do empreendimento. É um trabalho contínuo e de longo prazo, que andará junto com a presença da Voltalia na região".

Questionados sobre a razão pela qual o licenciamento ambiental completo não foi requisitado para a multinacional francesa, tanto o Inema como o Cemave não deram resposta até a publicação desta reportagem.

Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/noticias-da-floresta/2021/06/03/complexo-eolico-proximo-a-habitat-da-arara-azul-de-lear-ameaca-animais.htm?cmpid=copiaecola

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