
Rui Rezende revela, no livro de fotografias Vaqueiros do Raso da Catarina, a lida diária de parte deste povo da caatinga do Nordeste brasileiro. O texto de Cícero Félix, jornalista convidado pelo fotógrafo para participar do projeto, dialoga com as imagens em plena harmonia. O resultado é uma obra de caráter etnográfico minuciosamente trabalhada.
A composição exata das imagens, com a memória das palavras dos pastores de gado, traduz com maestria o universo dos vaqueiros do Raso da Catarina: um espaço geográfico, com características ambientais únicas no mundo, e com uma cultura tradicional que existe desde o tempo da colonização da área, no século XVII. Transformada em estação ecológica, convive com o confronto da preservação ambiental, da permanência e da sobrevivência das espécies e da cultura.
Cuidar do gado é o ofício do vaqueiro, porém ser vaqueiro no sertão é mais que uma profissão. É destino. Para eles a "lida" é um ritual sagrado que faz parte do seu sangue. É uma relação de simbiose com os animais, com a caatinga, com a água e com o Divino.
"Desde que nasce o vaqueiro é menino véi. Com cinco anos prende vaca, bezerro, munta em cavalo, joga a corda, encara o bicho. É inspirado no sangue, carregado de sei que de paz que corre numa linha sem desvio, é vaqueiro de natureza!" Assim diz o texto de Cícero Felix.
Rui Rezende chegou ao Raso da Catarina, há quatro anos, com o intuito de fazer algumas fotos da região para um cliente. Chegando ao local, ele se deparou com um acampamento de vaqueiros com trinta e três pessoas. Rui ficou fascinado de imediato, mas a reação dos vaqueiros foi de cautela; eles pensaram que Rui era fiscal do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Ouça Rui contando a história no vídeo abaixo.
Rui encontrava com vários vaqueiros pelo caminho enquanto realizava o trabalho contratado. Ele fazia fotos e conversava sobre a vontade de acompanhá-los numa investida pela caatinga. Pegou o número de telefone de alguns deles e prometeu voltar com brevidade para mostrar as fotos impressas, o resultado da sua investida. A devolutiva para a comunidade sempre acompanhou os projetos do fotógrafo.
Mas, um acidente aéreo o pôs de resguardo e tratamento por um ano. Era preciso recuperar a saúde do corpo para continuar fotografando.
Com a disposição física recuperada Rui volta ao sertão, encontra com os vaqueiros e na conversa decidiu realizar o livro. A partir daí foram onze visitas de imersão total no dia-a-dia dos pastores de gado. Rui vestia as roupas de couro, montava calo, comia a mesma comida e bebia da mesma água. Estavam juntos compartilhando a vida.
Do primeiro momento até a finalização do livro passaram quatro anos.
Para conferir detalhes dessa investida veja o vídeo no YouTube. É só clicar na foto abaixo.

A pesquisa e os registros fotográficos de Rui Rezende junto com o parceiro convidado, o jornalista Cícero Félix, captura de forma única a lida com o gado no Raso da Catarina e tudo que compõem este cenário, desde fragmentos do ambiente até a linguagem oral. Um trabalho minucioso de registro da memória de uma tradição cujo destino é incerto. Veja abaixo algumas passagens do livro.
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